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O sol de meio-dia!
Ser mãe de menina é uma doce loucura. Elas parecem vir com um chip carregado das nossas dores a serem curadas e dos nossos talentos a serem regados. Maju chegou a mim com uma angústia conhecida. Ela tem uma percepção reveladora da realidade. Sua alma é sensível e percebe, com intensidade, luzes e sombras. Sou feliz pela liberdade que ela tem de compartilhar. Estamos juntas sendo tratadas em relação à nossa intensidade. Há poucos dias, ela me trouxe uma metáfora dolorosamente
Leliane Picanço
4 min de leitura


Gente chata
Eu amo arrumar a casa enquanto aprendo alguma coisa. Outro dia, uma pregadora bem-humorada arrancou de mim algumas risadas enquanto descrevia pessoas chatas. Na verdade, eu devia estar rindo de nervoso, tal qual minha identificação com algumas características. Posso afirmar, sem medo de errar, que graduei com honra, pós-graduei e, achando pouco, fiz mestrado e doutorado na escola da chatice. Me orgulho? Claro que não! Mas foi bom lembrar o quão chata eu já fui, para continuar
Leliane Picanço
3 min de leitura


Não é normal
Há alguns anos, assisti a um filme que mexeu comigo em muitas dimensões. Não vou citá-lo aqui, pois não o aconselho. Fiquei semanas a fio angustiada e impressionada com seu conteúdo. Trata-se da história real de uma menina que, sequestrada aos 9 anos, desenvolve uma estranha relação com seu sequestrador. Aos poucos, a jovem vai se habituando ao minúsculo lugar onde é encarcerada e, ao longo dos anos, passa a considerar o agressor como protetor. A narrativa tem um “bom final”,
Leliane Picanço
5 min de leitura


Baiacu
O baiacu é um peixe com um sistema de defesa muito curioso, inteligente e eficiente. O pequenino peixe tem a incrível capacidade de, literalmente, inflar-se quando se sente ameaçado. Enche-se de água e, em segundos, vira uma bola cheia de espinhos e veneno, tornando-se nada interessante para os predadores à espreita. Hoje pensei em quanto tempo fui um baiacu. Um peixinho no mar da vida com um ego inflado e amedrontado. Quase tudo era percebido como ameaça. Fui espinhosa e ven
Leliane Picanço
2 min de leitura


Oi, Culpa,
Passei muito tempo sentindo raiva de você. Há pouco, soube que essa raiva falava do meu medo de ouvir seus recados. Tenho estudado sobre você; precisava entender sua companhia constante e insistente. Não há momento bom ou ruim — mesmo não sendo bem-vinda, você sempre quer fazer “companhia”. Eu acreditava verdadeiramente que você era o ônus das minhas más escolhas ou decisões. Que era como o “bicho-papão” que vinha me visitar se eu me comportasse mal. Eis aí um problema: meus
Leliane Picanço
2 min de leitura


O Conforto do Caos
Um dos encontros mais marcantes que tive na vida tem endereço e participantes. Não era da minha vontade e era totalmente destituído de expectativas sobre mim, no sentido pessoal. Era sobre o outro e sobre como aquele encontro poderia consertar quem eu acreditava amar — sem expectativas. Somos, quando afastados da fonte da vida, seres essencialmente interesseiros. Nosso cérebro caído quer ganhar a qualquer custo, mas sem gastar energia e disposição. Voltando ao encontro: uma s
Leliane Picanço
4 min de leitura


O suficiente
Tenho vivido dias de mergulhos profundos. Eles já não são tão dolorosos como antes. Têm densidade, mas leveza. Algo que desafia a matemática natural, mas é perfeitamente possível na dimensão da luz. Foram muitas as recordações nas últimas semanas; elas vieram permeadas de emoções com cheiro e sabor de reconciliação. Como se eu tivesse achado um lugar para boiar segura após uma grande arrebentação. Hoje, a recordação não é memória registrada de uma realidade lembrada. Ela vem
Leliane Picanço
4 min de leitura


Sobre a alegria…
No início de minha caminhada de recuperação, eu pouco ou nada sabia sobre minhas emoções e sentimentos. Na verdade, nem sabia que existia diferença entre eles, tampouco que haviam sido construídos a partir de necessidades fundamentais supridas ou não. Cheguei à recuperação com dores tão lacerantes e barulhos tão gritantes que as partilhas pareciam ecos distantes. Demorou a começar a entender um pouco; foi bem devagar. De ecos, passaram a ser sussurros; de sussurros, passaram
Leliane Picanço
3 min de leitura


Olá, Angústia,
Já fomos grandes inimigas. Houve um tempo em que, mesmo sentindo sua “presença” de longe, o medo se impunha como se estivesse me mudando para a casa ao lado. Sim, fugindo de você, coloquei-me nas situações mais esdrúxulas e perigosas. Fugindo de você, brinquei com minha identidade, disfarçando-me nas mais loucas fantasias, fantasiando enganar a própria realidade. Fugindo de você, eu corria para a comida e outras distrações, buscando o prazer que sua visita tentava furtar. Fug
Leliane Picanço
2 min de leitura


Especialista em fingir
Hoje, em minhas ponderações, cheguei a um insight revelador: ou aprendemos a SENTIR ou aprendemos a FINGIR. Para muitos de nós, o sentir é ameaçador e levanta memórias sombrias de algum momento em que sentir seria morrer, ou ver morrer aquilo que não tínhamos a menor condição de conceber. Quando lidamos com vícios dentro ou fora de nós, em alguma escala, sentir não é uma opção agradável. Na codependência, buscamos o vício fora, a fim de alimentar nosso vício interno de cuidar
Leliane Picanço
3 min de leitura


Oi, Raiva,
Fazia algum tempo que não ficávamos tão próximas. Fomos amigas íntimas por grande parte da minha vida; foi com você que aprendi a me defender de perigos explícitos e ocultos. Tenho certeza de que algumas pessoas lembram mais de mim em sua companhia do que mesmo “sozinha”. Você tem seus disfarces externos… pode ser sarcástica, irônica e “levemente” ameaçadora. Mas, aqui dentro, não consegue disfarçar: chega fazendo o estômago doer e a pele estremecer. Você dá sinais claros de
Leliane Picanço
2 min de leitura

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