Oi, Raiva,
- Leliane Picanço
- 24 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 6 de mai.
Fazia algum tempo que não ficávamos tão próximas. Fomos amigas íntimas por grande parte da minha vida; foi com você que aprendi a me defender de perigos explícitos e ocultos. Tenho certeza de que algumas pessoas lembram mais de mim em sua companhia do que mesmo “sozinha”.
Você tem seus disfarces externos… pode ser sarcástica, irônica e “levemente” ameaçadora. Mas, aqui dentro, não consegue disfarçar: chega fazendo o estômago doer e a pele estremecer. Você dá sinais claros de que o momento exige fuga ou luta.
Durante muito tempo, me senti segura ao seu lado. Com você, criticava e apontava duramente os defeitos alheios, a fim de esconder os meus; com você, eu dava gritos abafados de angústia em pedidos de socorro distorcidos, que quase ninguém conseguia compreender. Através de você, produzia e cultivava barulhos externos na tentativa de libertar a fúria interna que me consumia desde sempre, sem eu perceber. Com você, me sentia uma heroína e “quase” ocupava o lugar de Deus.
Foi assim até o dia em que entendi sua nobre função: proteger-me dos meus medos. Foi uma conversa difícil, você lembra? Tive que dizer que não precisava mais de sua presença constante, que necessitava descansar do estado de alerta que sua companhia impõe. Agradeci por me guiar com segurança em caminhos escuros e pedi trégua. Você respeitou minha decisão.
Nos últimos dias, senti você bem perto; reconheci sua presença em minha sede de guerra e justiça — tudo na minha medida, insanidade conhecida e reconhecida pelos olhos da minha recuperação e através da Graça que só meu Poder Superior pode conceder.
Quero te agradecer mais uma vez por chegar dando recados importantes e me ajudar a admitir que estou com medo. Estou com muito medo de perder… estou com medo do luto, de aceitar velhos abusos, de abusar, de não saber impor limites e de não respeitar os limites alheios. Estou com um medo paralisante daquilo que não posso, mas gostaria de controlar. Estou com medo de expor a mim e à arte que tanto amo. Estou com medo até do tempo, que ultimamente dá a sensação de estar andando mais devagar.
Sim, você é a máscara que uso quando estou com medo; já não se disfarça tão bem. Gosto dessa nossa nova fase. Estamos amadurecendo e aprendendo juntas que a coragem não é a ausência do medo, e sim o coração em ação, agindo apesar dele.
Vamos dar conta. Aprendemos a pedir socorro dAquele que pode todas as coisas e usa os vales profundos para nos tornar melhores, se assim permitirmos.
Só por hoje, escolho a paz. Você tem permissão para ocupar espaços limitados, em momentos necessários e importantes, como geradora da energia necessária — mas não pode ficar. Sinto muito.
Só por hoje, eu escolho a paz; a força e a coragem que só Ele pode dar!
Obrigada por me ouvir.



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