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Gente chata

Atualizado: 30 de abr.

Eu amo arrumar a casa enquanto aprendo alguma coisa. Outro dia, uma pregadora bem-humorada arrancou de mim algumas risadas enquanto descrevia pessoas chatas. Na verdade, eu devia estar rindo de nervoso, tal qual minha identificação com algumas características.


Posso afirmar, sem medo de errar, que graduei com honra, pós-graduei e, achando pouco, fiz mestrado e doutorado na escola da chatice. Me orgulho? Claro que não! Mas foi bom lembrar o quão chata eu já fui, para continuar queimando essas certificações sem sentido.


Para começar, gente chata se considera o centro do universo. Tudo é sobre ela — até o que, de longe, não é. Seus vazios são projetados para fora, fazendo-a pensar que incomoda o outro, que muitas vezes só está tentando achar solução para as próprias questões.


Gente chata é intrometida. Tem uma habilidade singular de tentar intervir em assuntos que não são seus, sem ao menos ser solicitada. Tenta defender quem sequer solicitou defesa e tem um senso de justiça totalmente desbalanceado. Mesmo que não aparente, está sempre se achando injustiçada.


Gente chata encontra defeitos. O julgamento negativo se forma na mente de modo automatizado. Está sempre criticando quem diz que ama e apontando no outro os defeitos sobre aquilo que não consegue sequer ver em si.


Gente chata é especialista em encontrar soluções esdrúxulas para problemas simples. Afinal de contas, precisa se manter na vítima que carrega o mundo nas costas.


Gente chata pede calor no frio e frio no calor. A insatisfação é seu cotidiano; nunca nada está tão bom que não possa ser melhorado.


Gente chata rumina soluções de problemas que não são seus. É ativista e ama militar por uma causa, ainda que seja no silêncio e na solidão de seus próprios pensamentos. Nem imagina quanta energia de vida e criatividade perde com a constância de pensamentos intrusivos.


Gente chata não descansa. Não suporta a culpa de simplesmente descansar e deixar com o outro a parte que lhe cabe. Acredita que seu constante cansaço possa gerar uma medida de compensação. Não entende que isso é uma fantasia que enrijece a própria vida.


Gente chata tem seu tempo e modo e jamais respeita o tempo e o modo do outro. Tem certeza de que seus padrões são absolutos e tenta até fazer com que isso fique aceitável por meio da manipulação.


Gente chata não diz não, tem dificuldade de impor limites e bancar o próprio desejo. Ao invés disso, lança mão de adoecer e entrega ao corpo e à psique a responsabilidade de resolver — obrigando, assim, o outro a um cuidado que não consegue dar a si.


Gente chata é desorganizada, mas ama posar de organizada e pontual. Porém, ela sabe como estão suas “gavetas” físicas e emocionais — essas às quais ninguém tem acesso.


Gente chata pode ser legal e bem-humorada da porta de casa para fora, causando dor, angústia e confusão a quem a conhece no dia a dia.


Gente chata é catastrófica. Os problemas são sempre maiores do que realmente são.

Gente chata não tem tempo. Está sempre ocupada, gosta da sensação de produtividade que uma agenda lotada parece entregar.


Gente chata se esquiva. Está sempre fugindo da conversa importante, da solução que beneficia todos, de encarar a realidade como ela realmente é.


Gente chata é irônica. Sem conseguir bancar as próprias opiniões e escolhas, lança no outro, em forma de humilhação, sua própria inadequação.


Gente chata é sofredora. É sempre quem trabalha mais, se esforça mais, se preocupa mais, economiza mais (percepção fantasiosa), se importa mais, se dedica mais — e, com isso, castiga o outro, que está sempre fazendo “menos”.


Gente chata adora chamar o gerente para reclamar, mas nunca gasta seu precioso tempo para agradecer o quão bem servida foi.


Gente chata está sempre fora: fora de si, fora de tempo, fora de lugar. Seu espaço interno é tão bagunçado que ela não suporta estar consigo mesma.


Gente chata pode falar demais e causar confusão. Também pode falar de menos e causar uma confusão ainda maior, pois o problema real nunca aparece. E sua passivo-agressividade são murros indiretos.


Gente chata não gosta do suficiente, sempre quer mais — ainda que não esteja disposta a pagar os preços necessários para isso. Toma veneno achando que vai matar quem está fora de si.


Gente chata ama um drama. Viver sem problema é estranho; chega até a sentir-se vazia sem nenhuma grande pendência para resolver.


Gente chata é chata. Está machucada demais para ser leve. É adicta à dor e ainda não compreendeu que não precisa de tanto barulho para sentir-se viva.


Só por hoje, mais uma vez, escolho não ser gente chata. A chatice é uma sombra vista à luz de um humor negro, que aleija seu hospedeiro. Seguirei respeitando os meus dias de recolhimento e chatice — sou humana —, mas fugirei da necessidade de derramar no outro aquilo que não é sua responsabilidade.


Alguém mais aí quer deixar de ser chato(a)?

 
 
 

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