O sol de meio-dia!
- Leliane Picanço
- 26 de abr.
- 4 min de leitura
Atualizado: 6 de mai.
Ser mãe de menina é uma doce loucura. Elas parecem vir com um chip carregado das nossas dores a serem curadas e dos nossos talentos a serem regados.
Maju chegou a mim com uma angústia conhecida. Ela tem uma percepção reveladora da realidade. Sua alma é sensível e percebe, com intensidade, luzes e sombras. Sou feliz pela liberdade que ela tem de compartilhar.
Estamos juntas sendo tratadas em relação à nossa intensidade. Há poucos dias, ela me trouxe uma metáfora dolorosamente emocionante:
— Mãe, às vezes me sinto como o sol do meio-dia. Ele brilha e é muito mais quente. As pessoas não gostam do sol do meio-dia. E, se ele soubesse disso, talvez se apagasse. Eu me apago para não incomodar.
Meu coração partiu-se em alguns pedaços. Seus lábios conseguiram reproduzir as vozes que já gritaram com força na minha alma.
Não consigo descrever quantas vezes já me apaguei para não incomodar.
Houve um tempo em que parei de falar, pois me foi dito que eu falava demais. E era verdade. Porém, eu só precisava aprender que há tempo de falar e há tempo de calar.
Houve um tempo em que parei de cantar. Alguém achou que eu cantava para aparecer, rejeitou-me sem explicações e eu calei minha voz. Sem perceber, emudeci para aplacar os sentimentos de inadequação.
Se eu queria aparecer? Sim, em muitos momentos. Mas ali, eu só precisava saber que esses sentimentos são normais, eu estava em processo de amadurecer, ainda sedenta por aprovação. Já cantei baixinho por ter alguém ao meu lado dizendo: “suave, suave, não precisa tanto” — mesmo sabendo que a música é a minha maior expressão de adoração.
Houve um tempo em que parei de sair. Uma jovem mãe divorciada passa por dores silenciosas e indizíveis. Já tive crise de pânico ao tentar escolher uma roupa que escondesse toda a minha vergonha. Desisti de sair ao chegar à porta de casa, com medo de ser — e de me sentir — uma ameaça. Isso durou alguns anos. Sinto muito.
Houve um tempo em que parei de dançar. Não podia escandalizar aqueles que estavam doidos para fazer o mesmo, mas estavam acorrentados pela religiosidade.
Houve um tempo em que parei de contar minhas experiências com Deus. Já fui tema de piadas e chacotas irônicas por causa disso.
E sabe o mais louco de tudo isso? As mesmas pessoas que criticavam minha intensidade se alimentavam da vida, da alegria e da criatividade que ela é capaz de gerar.Puxei ao meu Pai, meu Aba — sou Sua imagem e semelhança.
Só por hoje, escolho viver a intensidade com a qual fui projetada.Foi assim antes da fundação do mundo (Efésios 1:4-5). Foi assim desde o ventre da minha mãe (Salmo 139:13).
Isso não tem a ver comigo, e sim com os propósitos para os quais Ele me criou.Eu escolho obedecer, sendo exatamente quem nasci para ser neste plano — até voltar para casa.
Escolho a intensidade que me permite saborear a vida com todos os seus aromas, cores e sabores. Que me permite viver encontros que se transformam e reencontros.
Só por hoje, escolho falar.A língua tem poder sobre a vida e sobre a morte; os que gostam de usá-la comerão do seu fruto. (Provérbios 18:21)
Eu escolho gerar vida com a minha língua e comer dos bons frutos que ela é capaz de produzir.
Só por hoje, escolho cantar.
Pois Ele colocou um cântico novo em meu coração (Salmos 40:3). E cantarei como, onde e para onde eu for plantada.
Só por hoje, escolho dançar.
Minha pequenina alma necessita desse movimento de liberdade. É assim que ela expressa a intensidade da alegria de servir ao Deus grandão que eu sirvo.
Louvem o seu nome com danças; ofereçam-lhe música com tamborim e harpa. (Salmos 149:3)
Só por hoje, escolho aparecer.
Ainda não é tão leve e natural como eu gostaria, mas já é intencional.
Não posso ser luz d’Ele escondida e apagada debaixo de uma mesa.
Não posso ser sal d’Ele sem estar misturada, dando o sabor devido onde estiver — ou onde Ele me enviar.
Só por hoje, escolho a consciência dos preços a pagar por isso.
Sei que haverá rejeição e crítica, inclusive da parte daqueles que dizem me amar.
Mas confio no Deus que ouve conversas que eu jamais quero ter conhecimento.
A justiça é d’Ele, e eu confio nela.
Ainda assim, escolherei continuar amando a quem entender que vale a pena não deixar ir.
Só por hoje, vigiarei meus pensamentos, para que eu não pense de mim ou de ninguém nem mais nem menos do que o devido.
Escolho vigiar meus lábios, para que nenhuma palavra de maldição saia por eles.
Escolho vigiar meu olhar, para que ele não diga as palavras que, por covardia, eu não revelo.
Todos fomos criados para o mesmo propósito: a glória d’Ele. (Isaías 43:7)
Só por hoje, vou cuidar da minha Maju, para que ela não precise se apagar. Percorri um longo e doloroso caminho. Estou certa de que foi para aplainar e redimir o tempo por ela.Já consigo colher frutos desse movimento. É tempo de viver — e viver em abundância!
Obrigada por me ouvir.



Muito bom!!