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Não é normal

Há alguns anos, assisti a um filme que mexeu comigo em muitas dimensões.

Não vou citá-lo aqui, pois não o aconselho. Fiquei semanas a fio angustiada e impressionada com seu conteúdo. Trata-se da história real de uma menina que, sequestrada aos 9 anos, desenvolve uma estranha relação com seu sequestrador.


Aos poucos, a jovem vai se habituando ao minúsculo lugar onde é encarcerada e, ao longo dos anos, passa a considerar o agressor como protetor. A narrativa tem um “bom final”, na trama e na vida real. Aos 17 anos, uma luz acende dentro dela e a faz lembrar de seu nome e identidade.

Algo grita internamente e a relembra de que nada daquilo é normal.

O filme tem nuances assustadoras de como nosso cérebro, para se proteger e sobreviver, “se adapta” a realidades totalmente fora do comum.


A Síndrome de Estocolmo é uma resposta psicológica em que a vítima de sequestro, abuso ou violência desenvolve laços afetivos, empatia ou até mesmo lealdade com seu agressor, mesmo diante de situações de ameaça ou perigo. O nome surgiu após um assalto a banco em Estocolmo, em 1973, quando reféns passaram a defender os criminosos após serem libertados. Uma insanidade nascida dentro da insanidade.


A verdade sobre cadeias emocionais e espirituais tem movimentado águas aqui dentro.

Mesmo tendo contato com as teorias por meio da religião, a aplicação na minha vida prática era complexa. Uma confusão que hoje pode ser explicada através dos olhos espirituais acordados e sedentos por mais dEle.


Eu não quero mais normalizar o anormal.

Não quero mais viver cheia de correntes e acreditando que o cativeiro é o meu lar.


Não é normal uma vida escassa e ressequida, onde não há flores nem frutos abundantes, mas apenas o mínimo — e às vezes nem isso.

Não se trata de contentar-se na suficiência, mas de aceitar viver com contas que só fecham no negativo — seja no universo físico, emocional ou espiritual.

É sobre dívidas externas que apontam para os acertos de contas que ainda não ousamos fazer dentro de nós.


Não é normal vivermos isolados.

Fugindo da intimidade, seja lá por qual razão for.

Não é sobre estar cercado de multidão, mas ter intimidade suficiente com alguém que saiba quem realmente somos.

Alguém com quem possamos contar nos dias sombrios e dividir as alegrias que só o germinar pode trazer.

Relações de via dupla, onde dar e receber em equilíbrio sejam o fundamento.


Não é normal vivermos em competição.

Inclusive com aqueles que dizemos amar.

Não é normal sentirmos inveja nas sombras, nos segredos que não contamos a ninguém, mas que geram angústia e nos fazem arquitetar estratégias esdrúxulas para parecer melhores do que nosso objeto de inveja.

Ainda que isso seja feito pela via da difamação discreta e da manipulação.


Não é normal vivermos doentes.

Seja física ou psiquicamente.

Não é à toa que Pharmakeia, nas histórias mitológicas, é considerada uma bruxa que envenena.

Desonramos o corpo que nos foi entregue para viver — e logo estaremos nas mãos dela.


Não é normal um casamento sem intimidade, seja ela física ou emocional.

Não é normal que cônjuges não conheçam as dores e sombras mais profundas um do outro, bem como o que mais lhes alegra.

Não é normal não trabalharem juntos por crescimento no mundo espiritual — e ignorarem que isso reflete diretamente no mundo material, para serem bênção na vida de outros, a começar pelos seus.


Não é normal conviver com a amargura que nos faz jorrar águas amargas em forma de ações, palavras e reatividade. A obstinação que nos faz desejar vingança em vez de paz, mesmo que estejamos sob a “proteção” da falsa espiritualidade — mais conhecida como religiosidade.


Não é normal a crítica, exposta ou velada, que humilha e encurrala o outro, fazendo-o prisioneiro de nossas opiniões, vontades e desejos.


Não é normal viver em opressão sem ceder ao descanso.

Estranhando a calmaria da paz que Ele oferta — uma paz que não exige compreensão, só entrega.


Não é normal desconfiar dos momentos felizes, como se fossem um golpe de sorte que logo nos escapará das mãos.


Não é normal vivermos na bagunça de uma casa desorganizada, com acúmulo de coisas que não usamos, com a sujeira que denuncia nossa preguiça — que se acostumou com o mais ou menos.

Nada quebrado. Nada faltando. Nada fora do lugar.

Três regras simples que podem mudar totalmente nossa perspectiva.


Não é normal as anormalidades dos nossos filhos que fingimos não ver — pois denunciam aquilo que ignoramos em nós.


Não é normal vivermos ofendidos — e ofendendo. Ainda que essas ofensas estejam regadas de sutilezas.


Não é normal a falta de vigor físico. O cansaço ao mínimo esforço. O sono que parece não ter fim.


Não é normal vivermos andando em círculos, entre a dor, o prazer (vícios) e a culpa. Uma cadeia sem fim de anestesia da alma.


Não é normal convivermos com dor física. Com músculos “embolados”. Um alarme que já nem soa tão alto, de tanto ser ignorado.


Não é normal convivermos com dor psíquica. Uma tristeza que não passa, mas também não aumenta. Uma ansiedade invisível aos olhos, mas manifestada na voracidade do comer.


Não é normal professarmos uma fé que prega o sobrenatural, mas não o experimenta.


Não é normal não servirmos em colaboração com algo que não acabe em nós e em nossas próprias vontades. Não é normal vivermos de outro em outro, em busca de validação de aceitação. Como órfãos sem nome e identidade.


Não é normal o apego aos nossos enredos heróicos. Ora somos grandes vítimas, ora valentes salvadores.


Não é normal adorarmos deuses que nós mesmos criamos para parecermos maiores ou “iguais a”.


É assim que toda tragédia começa. O orgulho precede a queda.


Só por hoje, vou visitar com calma as cadeias nas quais me acostumei a estar.

Hoje percebo que algumas delas eu até decorei — para parecerem menos sombrias, frias e solitárias.

Não há angústia, mas há pressa.

Elas já me furtaram movimento, expansão e liberdade, para além do que posso calcular.


Só por hoje, vou orar ao Deus que não me obriga a sair, mas que já pagou o preço e espera que eu aceite Seu sacrifício em obediência. Está ansioso por remir o tempo “perdido” e usar tudo o que vivi em cada uma dessas cadeias — para propósitos de bem.


Só por hoje, vou compartilhar minhas descobertas com outros encarcerados.

Meu coração pulsa feliz só de imaginar vê-los do lado de fora.


Vamos juntos viver o normal do Reino, que é paz, justiça e alegria.

(Romanos 14:17).


“Obrigada por me ouvir.”

 
 
 

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