Ficar
- Leliane Picanço
- 15 de jun.
- 3 min de leitura
Verbo transitivo indireto na língua portuguesa. Ou seja, para que tenha sentido completo, necessita de um complemento com preposição, um conectivo. Uma pequena palavra que vincula a ação de ficar a um objeto. Criando, entre os três — verbo, preposição e objeto — uma relação de dependência que gera sentido.
Voltei aos tempos de pré-vestibular.
Foi esse pequeno verbo que explodiu em minha mente enquanto estava sentada debaixo de um chuveirão na garagem dos meus tios. Era a comemoração do meu aniversário de 41 anos (apesar de eu não me sentir com essa idade). Muitas caixas de Pandora haviam sido abertas nos últimos dias. Eu já estava indo embora quando minha tia insistiu para que eu ficasse, e juntos tomássemos aquele abençoador banho na garagem.
Que bom que fiquei.
E essa se tornou a reflexão mais significativa para a abertura de um novo ciclo.
Fica no presente.
Nesse lugar onde o tempo não existe. Não há futuro e não há passado. Só o agora e as memórias que vamos construir, se estivermos verdadeiramente conectados com nossos “objetos”.
Fica até o fim da festa.
Chega de pressa.
São incontáveis os tesouros encontrados por aqueles que ficam até que as luzes sejam apagadas. No fim da festa estão as melhores risadas; as conversas mais sinceras; a comida parece mais gostosa; a pista de dança é mais espaçosa.
No fim da festa, já estamos desmontados em todos os sentidos. Há mais de nós mesmos e mais dos outros. Um conhecer diferente de tudo o que aconteceu no auge da celebração.
Fica com você.
É precioso aprender a apreciar a própria companhia.
Sim, por vezes vamos descobrir que somos mais difíceis do que parecemos ser. Porém, também nos surpreenderemos com a quantidade de coisas extraordinárias que podemos oferecer a nós mesmos.
Só entregamos aquilo que temos.
Só podemos amar verdadeiramente o outro quando aprendemos a amar a nós mesmos.
Fica na conversa difícil.
“Medo e dúvida são ilusões.” (O Cavaleiro Preso na Armadura)
Não dê as costas a quem está tentando comunicar algo importante a você.
Todos estamos tentando.
Você só precisa de coragem para falar e para ouvir.
Grandes momentos e importantes decisões podem ser fruto da escolha de ficar.
Fica no velório.
Eu sei que é sufocante aproximar-se da morte. Quase todos nós a tememos.
Mas o seu ficar pode significar muito.
Não são necessárias palavras bonitas, consolo ou explicações. Nessas horas, a presença é bálsamo; o abraço é porto seguro; e a música cantada com a voz embargada é força.
Fica no enterro.
Essa é a hora mais difícil e lacerante.
Estamos entregando de volta ao pó muitas memórias que não viveremos. Estamos enterrando pedaços de nós mesmos que foram generosamente entregues ao viver do outro.
É um processo de crescimento que poucos têm coragem de enfrentar.
Porém:
“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.” (João 12:24)
Portanto, escolha ficar.
Fica no seu trabalho.
Faça o seu melhor com o que está em suas mãos hoje.
Honre as oportunidades do agora. São elas que pavimentam a estrada do amanhã desconhecido.
Como diz um amado amigo:
“Dá teu nome!”
Se assim o fizer, será o seu nome lembrado no momento oportuno.
Fica com os seus.
A seiva bruta de que você necessita para crescer está lá.
Sente-se debaixo do chuveiro e aprecie a música.
A pressa e a agenda lotada já lhe furtaram vida além do que você consegue mensurar.
É mais simples do que parece.
Mas é preciso se apequenar.
Os humilhados serão exaltados, em um sentido espiritual que só quem fica consegue compreender.
Fica com seu corpo.
Ele é sábio e amigo.
Tem uma linguagem clara e fala dos conteúdos da alma por meio dos afetos sentidos no universo físico.
Fica na angústia. Ela está a serviço do equilíbrio. Manifesta-se para ajudá-lo a combater ameaças que, por vezes, são invisíveis.
Fica com a alegria.
Ela está comunicando que está tudo bem estar tudo bem.
Fica.
No abraço apertado que parece não ter fim.
No beijo quentinho que pode ser o último.
Na sala de hospital que grita a saudade.
Na dança de passos desajeitados, mas dispostos.
Na risada produzida por piadas internas que denunciam vínculos que poucos conseguem sustentar.
Na mesa preparada com amor.
No café que precisou de ajustes na agenda para acontecer.
Na viagem de última hora que pode abrir portais de Nárnia para uma nova perspectiva.
O ficar é um movimento de conexão.
Nele são produzidos os bons afetos, com sua incrível capacidade de tecer vínculos reais.
Não mais fugas.
Não mais pressa.
Não mais barulhos desnecessários.
Passamos a viver sem grandes expectativas, mas com uma inteireza invejável.
Só por hoje, escolho FICAR onde fui plantada.
Este é um bom solo para o agora.
E, quando florescer novamente, estarei pronta para ser podada, multiplicada e semeada em lindos e novos territórios.
Obrigada por me ouvir.



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