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Oi, Culpa,

Atualizado: 30 de abr.

Passei muito tempo sentindo raiva de você. Há pouco, soube que essa raiva falava do meu medo de ouvir seus recados. Tenho estudado sobre você; precisava entender sua companhia constante e insistente. Não há momento bom ou ruim — mesmo não sendo bem-vinda, você sempre quer fazer “companhia”.


Eu acreditava verdadeiramente que você era o ônus das minhas más escolhas ou decisões. Que era como o “bicho-papão” que vinha me visitar se eu me comportasse mal. Eis aí um problema: meus sentimentos de inadequação sempre me faziam acreditar que eu estava me comportando mal, não importava a boa menina que tentasse ser. Era constantemente consumida pela sensação de desagradar, não importando o que fizesse. Maneira difícil de viver, não é?


Fui desvendando você aos poucos. Descobri que você é o gatilho das compulsões. Suas doses exageradas — e você sabe ocupar espaços como ninguém — impulsionam as tentativas desesperadas por alívio, fórmula infalível para sua multiplicação exponencial. Você adora um ciclo.


Também descobri que você escondia meus delírios de grandeza. A tal da prepotência com a qual eu tentava compensar meus sentimentos de desvalor. Desconsiderava minha humanidade falível e me auto-intitulava perfeccionista, iludida de que isso era uma qualidade. Não sei por quê, mas acho que, nesses momentos, você ria de mim discretamente. Sabia que eu estava fora de lugar e de tamanho.


Sob sua guarda, eu vivia a des-culpar-me com tudo e todos. Perdia tempo e energia tentando deixar claras minhas vontades e limites, só para depois me des-culpar por isso. Tenho certeza de que pareci confusa para muitas pessoas — a polaridade prepotente compensada com o arrependimento por sei lá o quê…


Você tem muitas facetas, e minha última descoberta foi surpreendente. Romper estruturas de maneira respeitosa e honrosa requer suportar doses cavalares da sua “presença”. Individuar-me e cumprir as missões para as quais fui preparada exige coragem para enfrentar você de frente e sem altas doses de raiva. Um enfrentamento fora dos conceitos de tudo que aprendi até aqui.


Não quero responsabilizá-la por meus delírios, polaridades e sabotagens. Mas quero aprender a ouvi-la sem que me confunda ou ensurdeça. Escolho romper, Culpa. Escolho ir além, e fazer algo bom com a vida que me foi entregue. Estou compreendendo, aos poucos, que não vou deixar de pertencer por ir; compreendi que há lugares que não me cabem mesmo, e escolho concordar com isso.


Escolho conceber, gestar e dar à luz novas e lindas realidades. Escolho a cura ao invés da morte; escolho o transbordante ao invés da escassez; escolho o novo, e não mais do mesmo.


Pode chegar quando quiser. Aos poucos, vamos estabelecer uma relação minimamente respeitosa. Você está contida em minha humanidade ainda em processo; sua voz já está mais mansa, e eu, menos raivosa. Estamos no caminho. Eu aprendi que posso entregar aquilo que nunca foi minha responsabilidade, assumir a parte que me corresponde e, com Ele, fazer as reparações devidas.


Só por hoje, escolhi conversar com você e parar de fingir que já sei lidar com suas investidas. Foi um passo importante. Obrigada por me “ouvir”.


 
 
 

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