O suficiente
- Leliane Picanço
- 26 de abr.
- 4 min de leitura
Atualizado: 6 de mai.
Tenho vivido dias de mergulhos profundos. Eles já não são tão dolorosos como antes. Têm densidade, mas leveza. Algo que desafia a matemática natural, mas é perfeitamente possível na dimensão da luz. Foram muitas as recordações nas últimas semanas; elas vieram permeadas de emoções com cheiro e sabor de reconciliação. Como se eu tivesse achado um lugar para boiar segura após uma grande arrebentação.
Hoje, a recordação não é memória registrada de uma realidade lembrada. Ela vem da lembrança das recordações construídas ao ouvir a narrativa da minha mãe, Maria, minha mãe de criação. Ela contava em detalhes uma história bonita de quando eu tinha dois anos e meio de idade. A cena aconteceu na humilde cozinha de nossa casa. Eu estava em pé em uma cadeira para alcançar a pia, enquanto brincava de dar banho em minhas filhas. Não sei o motivo, mas penso nessa cena com uma boneca tipo Barbie falsificada. Penso em mim feliz ao passar nelas o sabão de coco em barra que sempre estava na pia da cozinha.
Na narrativa de minha mãe, uma visita chega devagar e silenciosa e diz:
— Oi, filha!
Segundo minha mãe, minha reação é surpreendente. Desligo a torneira, largo minhas filhas na pia, desço sem pressa da cadeira e caminho em direção àquela voz. Dou passos firmes para os braços daquela que era a minha mãe de sangue. Ela havia sumido com minha irmã quando eu tinha cerca de seis meses de idade. Minha irmã? Não veio. Ela havia descansado das dores que roubaram a paz de seus poucos anos de vida.
Na recordação criada em minha mente, vejo minha mãe, Maria, chorar. Ela era emotiva e, quando contava sobre esse momento, ainda havia o espanto a respeito da espontaneidade do meu movimento em direção à minha mãe. Ao final da história, ela sempre dizia:
— O sangue falou mais alto, ela correu para a mãe sem saber que era a mãe.
A verdade é que eu sabia. A verdade é que eu aguardava ansiosa. A verdade é que eu sentia saudade. A verdade é que eu queria perguntar: cadê a mana? A verdade é que eu queria saber se agora todas ficaríamos juntas.
E acho que nunca havia chorado isso até agora.
Não, minha mãe não ficou. Tampouco tinha as respostas para as perguntas que a menininha descabelada só sabia sentir nas inflamações profundas da garganta. Ela também só era uma menininha descabelada e machucada, em luto profundo, tentando performar a adultez.
Só por hoje, voltei à cena da velha casa da rua Santa Helena e reeditei suavemente seu roteiro. A alma da menininha não abraça mais por ansiedade de apego, pedindo resgate, validação ou reconhecimento. Ela abraça de saudade e recebe o consolo da suficiência. Ela chora o luto da ausência que voltou e o luto da ausência que não voltou. Ela suporta a ansiedade da mãe que ficou e seu medo de que sua menininha fosse levada embora. Ela suporta a sequidão da mãe que já não chora mais, pois foi tomada pelo medo da morte. Não é um suportar prepotente, não mais um suportar de sobrevivente; é um suportar de quem recebe as coisas como foram, com a gratidão de criança que vê banquete em quase tudo.
Só por hoje, eu voltei para minha mãe, Maria. Ela tinha o riso largo, apesar da tristeza no fundo dos olhos que eu sempre quis alegrar. Senti suas mãos macias a tocar meu rosto encharcado e me dizendo tudo o que podia com o silêncio que não dói mais. A deixei com seu destino e posso seguir o meu. Ela foi a melhor mãe que eu poderia ter. Cantarei, dançarei e farei banquetes enquanto viver em sua honra. Desaprenderei, com cuidado e humor, um tanto de coisa errada que ela me ensinou. Sem pressa. Rindo e chorando como agora.
Hoje, voltei para minha mãe Sabá, pequena e serena. Não temos grandes histórias nem a emoção de uma maternidade vivida, mas temos a vida circulante. Sem ela, eu não teria nada. Sem ela, eu seria folha em branco, sem histórias, sem lágrimas, sorrisos e memórias. Agradeci por voltar naquele dia, pelo tempo que ficou. Deve ter sido muito bom sentir seu cheiro e seu colo. Foi o suficiente para recarregar; a prova é que estou aqui e estamos pacificando nossa história. Ainda há muito a colecionar. O hoje sempre carregará a eternidade, como aquele dia que agora ganhou novas cores em minha memória criada.
Só por hoje, eu voltei para mim. Tem algo novo nascendo dessas lágrimas de alívio. Não tem forma ainda, e eu já não tenho pressa de ver. Será que isso é a tal fé? Espero que seja. Confiar no invisível que move dimensões ainda está para além do que aprendi na religião. É grande, mas não me apequena; é superior, mas não me humilha. Me conhece, mas espera ansioso que eu queira conhecê-Lo.
Só por hoje, voltei para a vida. Ela é tão grande. Tão maior que nossos problemas de estimação e as velhas histórias que teimam em tentar se repetir. Só por hoje, pacifiquei a relação com as mulheres e senti muito pelo tanto que nos machucamos, tentando curar as feridas de nossas primeiras relações com o feminino.
Só por hoje, olhei para minha menininha. Depois do abraço, ela voltou para a pia. Sorriu para mim e voltou seus olhos para suas bonequinhas; estava tranquila, vivendo o presente brincar. Agora sabe que seu futuro está guardado por mãos invisíveis, mas reais.
Só por hoje, eu saí da cozinha da minha casa. Já era adulta, mas não impetuosa. Não dei as costas. Saí devagar, olhando minhas mães compartilharem um bom e adocicado café. Já não quero mudar nada. Minha alma descansa com essa imagem. Nos olhamos com sorrisos; há lágrimas de emoção e aceitação. Não esperamos mais nada umas das outras, além da expectativa de uma vida bem vivida — que cura, que serve e constrói. Uma vida que planta, colhe e prepara banquetes para que estranhos conhecidos possam se alimentar e voltar a viver. Sem pressa, sem palco, sem grandes e poderosas emoções.
Só por hoje — esse hoje que é portal para almas atentas e intencionais.



Comentários