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Especialista em fingir

Atualizado: 6 de mai.

Hoje, em minhas ponderações, cheguei a um insight revelador: ou aprendemos a SENTIR ou aprendemos a FINGIR. Para muitos de nós, o sentir é ameaçador e levanta memórias sombrias de algum momento em que sentir seria morrer, ou ver morrer aquilo que não tínhamos a menor condição de conceber.


Quando lidamos com vícios dentro ou fora de nós, em alguma escala, sentir não é uma opção agradável. Na codependência, buscamos o vício fora, a fim de alimentar nosso vício interno de cuidar, controlar e salvar. Esse movimento nocivo geralmente promove barulhos externos substanciais, a ponto de nos ocupar o suficiente para não precisarmos sentir. Um sofrimento aparentemente profundo (pois estamos calçados na máscara da boa vítima), mas extremamente infantil e superficial.


Eu fingi por muito tempo. Lembro-me de um momento ímpar em meu primeiro grupo anônimo. Ao fim da minha partilha, uma companheira olhou-me firme e amorosamente e perguntou:


 — Quando é que você vai começar a falar a verdade?


No meu fingir, havia criado tantas histórias para justificar e manter-me em relacionamentos e circunstâncias, que a realidade confundia-se com a fantasia. Na verdade, eu nem sabia como era o mais próximo do que se considera normal. No fundo, eu nem sabia quais eram as minhas verdades, do que gostava ou de como deveria — ou não — ser tratada. Eu estava em estado de sobrevivência, e minha arma era o fingir. Essa é uma especialidade de quem cresce em ambientes disfuncionais ou regados de álcool e outros vícios, explícitos ou ocultos. Acabamos por buscar mais do mesmo, por nos sentirmos confortáveis no desconforto conhecido.


Eu fingi realidades… escolhi olhar a realidade como eu gostaria que ela fosse, e não como ela realmente era.


Eu fingi sentimentos e emoções… por não saber lidar com o que realmente sentia, sorria ao invés de chorar; era simpática quando deveria ser firme e impor limites. Era doce quando as situações exigiam doses amargas, e acabava por me vingar passivo-agressivamente. Sufocava minha raiva — por vezes de mim mesma — e descontava em quem mais amava. Fingia ser forte, quando tudo o que eu queria era ser vulnerável.


Eu fingi amar para ser aceita; gostar para não ser rejeitada; saber para ser incluída; e não saber para não ser excluída. Eu fingia descanso quando meu corpo já dava sinais de esgotamento, só para dar um pouco mais daquilo que eu não tinha nem para mim mesma.


Aos poucos, eu — marionete — fui sendo libertada das cordas invisíveis que lancei para fora de mim. Em um primeiro momento, não é possível ficar em pé… é tudo muito confuso e embaralhado, as forças são escassas. Não sabia ser eu e desconfiava dos próprios pensamentos e da própria visão. Uma noite escura da alma, em travessia, que só com a mão dEle é possível atravessar. O SENTIR aqui tomou a direção de volta para dentro… de volta para casa.


Aos poucos, e com muito esforço, voltamos a fazer movimentos lentos e calculados. Não há mais pressa, urgência ou atrasos. Fingir perde a graça e seu superpoder aparente. Os elefantes brancos saíram da sala de estar e agora temos espaço para SER alguma coisa. A solidão inevitável; quase todos foram embora. Suportar o vazio é abrir espaço para as novas coisas que Ele quer fazer.


Só por hoje, não vou fingir uma realidade que não existe. Estarei atenta aos sinais claros em meus relacionamentos, meus filhos, minhas finanças, meu corpo, espiritualidade e comportamentos. Não preciso de soluções para tudo, porém não posso esquecer que vida é movimento (nada acontece se nada acontece). Só há movimentos saudáveis no sentir — e só há sentir maduro se eu mantiver meus olhos na realidade.


Só por hoje, escolho o sentir, na medida em que Ele me capacitar, com a coragem e ousadia que Ele já me entregou.


Só por hoje funciona.


“Obrigada por me ouvir.”

 
 
 

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