O Conforto do Caos
- Leliane Picanço
- 26 de abr.
- 4 min de leitura
Atualizado: 30 de abr.
Um dos encontros mais marcantes que tive na vida tem endereço e participantes. Não era da minha vontade e era totalmente destituído de expectativas sobre mim, no sentido pessoal. Era sobre o outro e sobre como aquele encontro poderia consertar quem eu acreditava amar — sem expectativas. Somos, quando afastados da fonte da vida, seres essencialmente interesseiros. Nosso cérebro caído quer ganhar a qualquer custo, mas sem gastar energia e disposição.
Voltando ao encontro: uma sala anônima em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. Escondida atrás de uma boa maquiagem e de roupas bonitas que eu comprava com o dinheiro que eu não tinha, estava uma jovem mãe perdida, falida e viciada em caos. Ninguém sabia — tampouco eu — que, apesar de ser louvada por ser uma guerreira cheia de fé, meu maior vício era o caos. O mesmo que eu afirmava, categoricamente, odiar.
Naquele momento, a pior parte talvez fosse espiritualizá-lo como um ataque direto do inferno às habilidades e dons a mim ofertados. Um discurso interno, por vezes chancelado por pessoas que eu admirava e confiava — sem culpados. Todos tentavam, com amor, encontrar explicações para a multidão de barulho ensurdecedor manifestado em minha curta existência.
E o que era esse caos? Talvez agora eu consiga organizá-lo de longe, mas jamais terei palavras que caibam na loucura que manifestei um dia e permiti que invadisse minha vida. Eu era uma menina quando fui elevada ao posto de resolvedora de problemas. Nem consigo descrever o prazer que sentia ao desenrolar algo complicado. O gozo de receber a gratidão que aliviava a dor da menos-valia insistente que habitava meu peito. E não precisava ser uma grande manifestação de gratidão — um simples olhar de aprovação já era suficiente para acalmar minha alma faminta por pertencimento.
Na adolescência, eu era boa companhia para qualquer grupo escolar. Fazia trabalhos por outros, estudava para ter o poder de oferecer cola. Sequer poderia imaginar que estava ali alimentando e viciando meu corpo na adrenalina do fazer constante. Fazer pelos outros o que eles deveriam fazer por si mesmos.
Cresci. Gostaria de descrever essa passagem, mas não consigo. Fui uma grande especialista em atropelar processos. Forcei o crescer na medida em que me candidatei a resolver problemas cada vez maiores. Claro, isso aumentaria meu nível de importância — e talvez aqui eu já tivesse uma pequena sombra dos reais motivos. Uma zona de conforto absurda que me fazia desconfiar da calmaria.
Foi quando me encontrei em uma sala anônima. Acabara de chegar aos trinta anos de idade. Fazia pose de empresária de sucesso, mas vivia assombrada pelo medo de cortarem a luz ou perder o belo carro, com milhares de parcelas a vencer, em uma blitz. Muitos segredos ocultos fizeram meu corpo padecer e engordar. O caos instalado em forma de vida heroica.
Os últimos anos têm sido de intensa busca pela paz. Eu realmente achava que a encontraria quando finalmente colocasse tudo no lugar e fizesse todas as reparações possíveis — a mim e aos outros. A consciência de uma recuperação possível me fez voltar ao mesmo pensamento interesseiro, agora travestido de espiritualidade requintada. Eu seria boazinha e obediente, e Deus resolveria todos os problemas que causei. Afinal de contas, eu não sabia. Nessas horas, acho que Deus deve dar risada de nervoso.
São muitos anos na caminhada de recuperação. Eu provei e vi que ela funciona — mas não antes de compreender sobre a paz que excede todo o entendimento. É sobre acalmar o caos interno muito antes de ele se manifestar nas circunstâncias que eu evitava — ou acreditava evitar. É sobre ver o caos e as consequências de sua manifestação e aquietar. Do contrário, eu nunca saberia quem é Deus. Não falo de passividade, pois responsabilidade aqui é regra de ouro.
Porém, não sou mais movida pela culpa que tenta controlar resultados.
Só por hoje, agradecerei pelo almoço tranquilo que tive com meus filhos em um domingo comum e extraordinário. Cozinhamos, rimos, ouvimos boa música. A mãe outrora apressada e raivosa descansou — e hoje podem contar com sua presença presente.
Só por hoje, me alegrarei com a rotina que prioriza a Presença. Gostaria muito de dizer que já é uma busca totalmente desinteressada, mas já posso dizer que é sincera e intencional. Quero conhecê-Lo e me permitir ser conhecida. Nem faço ideia de como isso é, mas tenho uma estranha e boa expectativa.
Só por hoje, me alegrarei com o corpo saudável, com músculos e gordura em equilíbrio que reverberam na disposição de viver. Pelo prazer de comer — não mais para me anestesiar ou esquecer. As dores são vistas e pontuais, no momento geridas por uma ensinável estagiária da vida adulta.
Só por hoje, vou trabalhar tranquila. Há provisão e providência para o agora. O maná nunca faltou. O azeite e o trigo nunca cessaram. E aguardo, com uma ansiedade tranquila, o tempo da colheita.
Há tempo e modo para que a chuva caia. Pois tudo coopera para o bem.
Só por hoje, descansarei na sombra de um dia tranquilo, onde cabe uma vida bem vivida — que já não acha interessante resolver problemas urgentes para se sentir útil, mas está à disposição de soluções criativas para a realidade tal qual ela se apresenta.
Só por hoje, agradeci àquele encontro inusitado: uma sala anônima, desconfortável em todas as dimensões possíveis — e, ainda assim, o lugar onde tudo começou a mudar.
Só por hoje, agradeço ao caos e ao seu esforço em tornar-se desconfortável. Arrisco dizer que, se ele não tivesse tomado proporções avassaladoras e incontroláveis, eu ainda estaria me alimentando de suas generosas porções de adrenalina, vitimismo e falsa importância.
Só por hoje, sempre funciona.
Obrigada por me ouvir.



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