Sobre a alegria…
- Leliane Picanço
- 26 de abr.
- 3 min de leitura
Atualizado: 6 de mai.
No início de minha caminhada de recuperação, eu pouco ou nada sabia sobre minhas emoções e sentimentos. Na verdade, nem sabia que existia diferença entre eles, tampouco que haviam sido construídos a partir de necessidades fundamentais supridas ou não.
Cheguei à recuperação com dores tão lacerantes e barulhos tão gritantes que as partilhas pareciam ecos distantes. Demorou a começar a entender um pouco; foi bem devagar. De ecos, passaram a ser sussurros; de sussurros, passaram a ser vozes confusas; de vozes confusas, passaram a ser apenas vozes e, aos poucos, essas vozes tornaram-se mensagens cada vez mais claras. Mensagens dEle para mim, sobre mim e por mim. Coisas que precisavam ser revisadas para que eu pudesse alinhar-me com sua boa, perfeita e agradável vontade.
Uma das primeiras e mais claras mensagens foi sobre minha “alegria”, que hoje reconheço mais como euforia. Em casa, eu era a “palhaça”, a que fazia e falava coisas engraçadas nos momentos mais estúpidos. Meu lar, apesar de amoroso, era triste e pintado em alguns tons mais cinzentos que o normal — nada declarado, mas profundamente sentido. Um dos meus papéis aprendidos era ser a “alegria”, o “bobo da corte”. Eu não sabia que “rir de tudo é desespero”, como descreve uma conhecida canção.
Sendo alegre, além de sentir-me aceita, dava-me a sensação de ser útil. Eu nem tinha noção da tristeza que habitava ali, mas, de alguma forma, entendia estar ajudando; era reconfortante para mim também. Quando casei, meu pai parou de falar comigo por um tempo. Eu não compreendia seu silêncio, pois, silenciosamente, fomos ensinados a silenciar — essas coisas que vêm de gerações antes de nós.
Um dia, cheguei à sua casa e ele estava à pia, lavando louça. Fiquei em pé na porta da cozinha e disparei:
— Por que não está falando comigo, pai? O que fiz para você?
(além de casar grávida sem lhe contar a verdade — em pensamento).
Ele me devolveu, em lágrimas: — Pensa que é fácil acordar todos os dias sem suas palhaçadas? Tem muito silêncio aqui…
Aproximei-me, abracei-o e disse que sentia muito, que também estava com saudades. Ele estava aprendendo a se expressar e romper o silêncio constrangedor. Choramos juntos o luto da mudança de uma rotina de anos.
Minha alegria era eufórica, sim. Dei o que pude com as ferramentas que tinha. Eu precisava dessa intensidade e sou grata pela forma bem-humorada com que lidei — e lido — com muitas coisas. Estou aprendendo, aos poucos, sua função real e a conversar com ela quando seu volume “passa do ponto”, com o entendimento de que talvez seja um sinal de negação sobre algo desconfortável que precisa ser visto e sentido, para então ser ressignificado. Entendi que ela também pode indicar uma raiva sobre mim mesma, quando vem vestida de sarcasmo.
Só por hoje vou curtir a alegria de estar mais alegre que ontem. Vou honrar essa habilidade de sorrir em meio ao caos e produzir, em minha farmácia perfeita e natural, os ingredientes necessários para as lutas diárias. Só por hoje, vou fazer alguém sorrir com alguma palhaçada criativa que minha mente mirabolante é capaz de produzir — não mais para fugir de uma realidade por vezes “nublada”, mas porque aprendi que posso sorrir apesar dela. Conto com um Poder Superior a guiar meus passos, dando-me serenidade para aceitar o que não posso fazer e coragem para mudar o que posso, abrindo perspectivas sem precisar mascarar a realidade.
Alegrem-se nas provações; elas produzem perseverança e maturidade (aditivo meu). Tiago 1:2-3.
Obrigada por me “ouvir”.



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