Baiacu
- Leliane Picanço
- 26 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 30 de abr.
O baiacu é um peixe com um sistema de defesa muito curioso, inteligente e eficiente. O pequenino peixe tem a incrível capacidade de, literalmente, inflar-se quando se sente ameaçado. Enche-se de água e, em segundos, vira uma bola cheia de espinhos e veneno, tornando-se nada interessante para os predadores à espreita.
Hoje pensei em quanto tempo fui um baiacu. Um peixinho no mar da vida com um ego inflado e amedrontado. Quase tudo era percebido como ameaça. Fui espinhosa e venenosa, mesmo nas versões mais bonitinhas.
Hoje pensei em quanto tempo fingi potência, quando tudo que eu queria era um cantinho para chorar. Mas, ao contrário do amigo baiacu, eu não sabia como fazer para desinflar. Nem como descansar de tanto tempo com todo meu corpo dedicado a manter essa louca defesa.
Hoje lembrei do dia em que não mais inflei. Gostaria de dizer que foi por sabedoria, ao colocar em prática o tanto de conhecimento que acumulei em minha busca ansiosa por respostas. Ou por ser movida por uma epifania, uma visitação angelical me autorizando a desinflar. Mas não foi.
Eu simplesmente não consegui mais manter-me tão cheia de mim mesma. Fiquei sem fôlego no corpo e na alma. A impotência de sentir-se impotente. Essa sim, sobrenatural e incomum. Foi entre crises de pânico, ansiedade e compulsão alimentar que compreendi que não cabia mais uma gota d’água em minha armadura marinha. O maior passo de liberdade que não dei, pois não conseguia. Ainda bem.
Foi então que comecei a chorar. Comecei lá de trás, das lembranças que só tinha por ouvir. Chorei a impotência do bebê que ficou sem mãe e irmã, que nada pôde fazer para que a morte não fizesse sua ceifa. Chorei a impotência da saudade que, por anos, não teve nome — só um vazio inexplicável e assolador.
Senti a impotência da escassez, do medo da falta. Da culpa de achar-me ingrata. De não entender o que sentia, mesmo sentindo — e o cansaço do esforço que fazia para não sentir, ou fingir não sentir.
Chorei a impotência das decisões que não tomei, mas que tiveram o poder de mudar toda a minha história. Senti a impotência da adultez infantil que fez escolhas se esquivando de escolher, sem a menor noção de que não decidir também é decidir.
Foi um longo tempo desinflando e desaguando um mundo de água que por pouco não me explodiu.
Só por hoje, sou baiacu em águas tranquilas. Não que não haja predadores, mas já não uso as antigas estratégias. Ainda estou organizando os antigos espaços desocupados. Nada foi jogado fora; estamos dando pertencimento a tudo como foi, exatamente como foi. Só assim os afetos podem ser sentidos sem culpa ou defesas esdrúxulas e desnecessárias.
Só por hoje, sou baiacu que está aprendendo a descansar das ameaças reais ou imaginárias. Não sou mais eu quem luta as batalhas. Há um Poder se aperfeiçoando para cada impotência admitida e declarada.
Só por hoje.
Obrigada por me ouvir.



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